Insurtechs: a nova (R)evolução no mercado de seguros

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César Patiño - consultor e especialista em novas tecnologias e inovação

Desde a pré-história,  a humanidade buscou proteção em cavernas e grupos. E ao longo do tempo começou a buscar proteção pessoal, familiar e para seus bens, fruto de trabalho e esforço, e garantia de sobrevivência futura.

As estratégias para mitigar riscos também são milenares.  Entre os anos 5.000 e 2.300 A.C., na China antiga, os transportes de mercadorias eram feitos em frágeis barcas e, para diminuir os riscos, cada barca transportava apenas uma parte da mercadoria de cada comerciante. Em caso de acidente, apenas se perderia uma parte dos bens de cada um.  Esta antiga forma de prevenção, distribuindo o risco para minimizar os prejuízos  caso ocorra um sinistro, é  um processo técnico e utilizado até os dias de hoje.    A título de curiosidade, na década de 80 e auge do sucesso da banda Queen,   a seguradora contratada pela banda não permitia que os quatro integrantes viajassem no mesmo avião, pois no caso de acidente, os custos com indenizações  seriam altos demais.

No Brasil, o mercado de seguros teve inicio em 1808, com a criação da “Companhia de Seguros BOA-FÉ”, tendo por objetivo operar no seguro marítimo.  Em 1850, com a chegada do Código Comercial Brasileiro, surgiram varias seguradoras que passaram a operar também seguro terrestre e seguro de vida (antes proibido por razões religiosas).

Então, estamos falando de um mercado de seguros tradicionais que tem 200 anos, mas poucas alterações ocorreram até o momento. Basicamente, o estado do mercado de seguros hoje:

  • É complicado - os produtos são difíceis de entender e os sistemas herdados sufocam a inovação.
  • É conservador - focado no longo prazo, com a experiência do cliente como uma preocupação secundária.
  • É conflitante - as empresas reconhecem a necessidade de mudar, mas não conseguem fazê-lo.

Este último ponto é crucial. Incapazes de mudar (devido aos sistemas legados, uma base de alto custo, tendência organizacional orientada a produtos e não clientes, e culturas tradicionais), as seguradoras estão destinadas a perder para concorrentes mais flexíveis.

Entretanto, a sociedade mudou, novas tecnologias surgiram e com isso novos comportamentos das pessoas e usuários de seguros.  Por exemplo,  com a adesão cada vez maior de serviços como Uber e Airbnb as seguradoras tradicionais estão sendo obrigadas a reconhecer que bens como veículos e residências agora tem uso tanto pessoal quanto comercial.

Outro ponto de mudança de comportamento, especialmente com as novas gerações, é a busca cada vez maior por aquisição de serviços ao invés de produtos.  As pessoas desejam pagar apenas pelo que consomem, sem ficar atreladas a contratos de longo prazo. E elas também desejam facilidade para contratar e cancelar esses serviços, de preferência  em qualquer horário e local, com poucos comandos, ao alcance das mãos.

O mercado de seguros está em meio ao maior abalo de sua história graças a três forças principais que agem em uníssono: mudanças na sociedade, avanço tecnológico e mudanças regulatórias.

Com essas disrupções, surgem os disruptores: as InsurTechs – empresas de tecnologia que mudam a forma como clientes contratam seguros -  abocanhando uma fatia de mercado e os GAFAs (Google, Amazon, Facebook, Alibaba) - empresas globais, digitais, com novos modelos de negócios e uma base de clientes pronta.

Vimos a ascensão da economia de plataformas, com muitos desses novos modelos de negócios obtendo valor através da desintermediação e orquestração de pessoas, serviços e dados.

Para obter provas disso no mercado de  seguros, basta olhar para as manchetes. Por exemplo, a notícia de que Amazon, JP Morgan e Berkshire Hathaway estão entrando juntos no mercado de saúde dos EUA.

Mas isso é apenas o começo do que está por vir.

Segundo estudo realizado pela a consultoria e corretora de seguros Aon que lançou, em novembro do ano passado, o relatório global – Oportunidades do Mercado de Seguros (GIMO), as InsurTechs serão um facilitador para o setor, e não um obstáculo, como muitas seguradoras tradicionais temiam.

O relatório apontou também novas modalidades de seguro com alto potencial nos próximos anos: risco cibernético, de catástrofes e doenças infecciosas. Esses segmentos, podem se tornar cada vez mais seguráveis com a cooperação das InsurTechs e suas capacidades de  tecnologia e análise.

O segmento de Insurtechs está crescendo rapidamente, até o final de 2017 já havia recebido aproximadamente US$ 14 bilhões em investimentos, em mais de 550 startups de todo o mundo.

Nos EUA e Inglaterra o movimento já existe há algum tempo e um bom exemplo das parcerias é a americana Lemonade, criada em 2015, com foco em seguros de imóveis para proprietários e locatários sem burocracia. A Lemonade recebeu um aporte de R$120 Milhões em rodada de investimentos liderada pela gigante japonesa Softbank e participação de nomes como Google Ventures, Sequoia Capital e Allianz.

No Brasil, o início do movimento foi através de corretoras digitais como Bidu e Minuto Seguros, e Youse – plataforma de vendas de seguros on-line da Caixa Seguradora, com um modelo de vendas sem corretor.

Seguindo a tendência do que ocorre em outras regiões do mundo, o movimento de inovação no Brasil segue firme e, recentemente, foi lançada a 88 Insurtech tendo como diferencial ser a primeira brasileira a utilizar a tecnologia Blockchain e combinar com outras tecnologias de ponta como Big Data & Analytics, Análise de reputação social e Telemetria (IoT) para reduzir custos e ter ofertas de acordo com as demandas dos usuários. Com uma experiência de 20 anos no mercado de seguros e passagens por Bradesco, Zurich e KPMG entre outras, Rodrigo Ventura  decidiu fundar a startup e explica “Nos inspiramos na Progressive com IoT telematics, na Lemonade com robotics e inteligência artificial, na InsurePalPolicyPal e Aigang com blockchain. Estamos combinando todas essas empresas e tecnologias para criar uma nova forma de inteligência e cultura em seguros”.    Outro diferencial, seguindo as tendências de sustentabilidade e engajamento social, é que parte dos valores não reclamados em sinistros  podem ser doados para causas globais como Unicef ou Médicos Sem Fronteiras,  de acordo com a escolha do usuário por meio do aplicativo.  Para Ventura “A demanda existe, mas é reprimida pelo preço do seguro. A questão não é se a inovação vai acontecer, mas quando — e já está acontecendo por todos os lados, simultaneamente.”

Talvez, o maior desafio às mudanças seja a própria regulamentação brasileira do setor, mas as mudanças já estão a caminho e é um movimento sem volta.